CANGAÇO

PADRE CÍCERO, COITEIRO DE LAMPIÃO? NÃO ACREDITO!
Por Daniel Walker

Muitos historiadores e inimigos gratuitos do Padre Cícero o colocam na lista dos coronéis que foram coiteiros ou protetores de Lampião. O escritor Luiz Luna, por exemplo, no seu livro Lampião e seus cabras, p.70, diz categoricamente: “Padre Cícero Romão Batista foi o maior protetor de cangaceiros em todo o Nordeste”.

Mas ninguém mostra documentos insuspeitos para confirmar a denúncia. E não o fazem porque simplesmente não existe comprovação documental do fato. Discordo de quem afirma ser Padre Cícero um dos coiteiros do Rei do Cangaço, tendo em vista as considerações abaixo:

a) Primeiramente, a pecha de Coronel, no sentido como o termo é usado e entendido no Nordeste, não coaduna com o comportamento e a personalidade do Padre Cícero. Ninguém conhece registro da existência de armas em sua casa ou de capangas a sua disposição, coisas muito comuns aos coronéis coiteiros de cangaceiros retratados na literatura.

b) O município de Juazeiro é um dos menores do Ceará, e na época de Lampião não havia nenhum fazendeiro rico em condições de alojar o bando de Lampião com total segurança, sem que as autoridades policiais locais e dos municípios vizinhos tomassem conhecimento.

c) Nenhum Coronel, mesmo se tivesse condições, teria coragem de hospedar Lampião e seu bando em Juazeiro à revelia do Padre Cícero. E Padre Cícero certamente jamais daria autorização para tal.

d) Apesar de ter familiares (irmãs e irmão) morando em Juazeiro, Lampião só se encontrou com eles em Juazeiro quando da sua visita em março de 1926. Mesmo disfarçado, como alguns historiadores insinuam, o cangaceiro jamais visitaria sua família em Juazeiro sem a permissão do Padre Cícero.

e) Acostumado a visitar cidades pequenas de municípios grandes e se alojar em fazendas, distantes do centro urbano, ele sabia que em Juazeiro, devido à pequena extensão do Município, em qualquer local da zona rural em que estivesse acoitado, seria muito fácil de o Padre Cícero e a polícia saberem. Portanto, não valeria o risco.

f) Com tantos problemas de ordem moral para administrar, em face das constantes difamações das quais era vítima, Padre Cícero não seria tolo a ponto de acrescentar este à relação.

g) Em Juazeiro, jamais Lampião estaria seguro seja quem fosse que lhe desse proteção. Só o Padre Cícero o poderia, mas na primeira vez em que o facínora esteve em Juazeiro, pelo motivo já exposto neste trabalho, a atitude do padre foi no sentido de que o visitante indesejável deixasse a cidade o mais rápido possível.

Quem age assim não pode ser classificado como coiteiro de Lampião. Então, afirmar que Padre Cícero foi coiteiro ou protetor de Lampião é conversa fiada, pura leviandade de quem só quer mesmo é denegrir a imagem do Padre Cícero, porquanto não existe nenhuma evidência consistente para comprovação do fato. Isso só cabe mesmo é na cabeça de quem não gosta dele, ou desconhece a sua história.
(Extraído do livro Padre Cícero, Lampião e Coronéis, de Daniel Walker)


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